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05/06/2006 02:59
O amor não acaba
O amor acaba? O cara disse. Numa esquina, num domingo, depois do teatro e do silêncio, na insônia, nas sorveterias, no elevador, como se lhe faltasse energia. Tenho dúvidas. Ele não volta? Não deixa rastro? Não renasce? Volta. Na esquina em que se beijaram pela primeira vez, lá está ele, na sombra perdida pela luz, na poeira suspense, na revolta da memória inconformada. Uma lembrança. Na solidão do domingo, lá vem ele, volta, com lamento, um quase desespero, e penso nos planos perdidos, que vida sem sentido... No teatro, no palco de história de amor, no cinema, na tela com beijos e risos, na TV, que inveja... Já tive um amor igual. Onde ele se escondeu? E, pior, por quê? Na insônia, o amor cai como uma tonelada de lápide, e se eu tivesse feito diferente, e se eu tivesse sido paciente, e se eu tivesse insistido, suportado, indicado, transformado, reagido, escutado, abraçado? Seu choro no meu ombro, foi tão recusado. Na sorveteria, ele volta, o amor em lembrança. Porque aquele sabor era o preferido dele, aquela cobertura era a preferida dele, aquela sorveteria era a preferida dele, assim como aquela esquina, aquele bairro, aquele clima, aquela lua, aquele mês, aquela temperatura, aquela raça de cachorro atravessando a rua, aquele programa de fim de tarde e aquele horário sem planos pra noite. Ele adora ficar na cidade no feriado, torce para barreiras e pontes caírem, e ninguém voltar nunca mais. Uma cidade só pra ele, um bairro, aquela rua, a sorveteria. Aquele cachorro brincando com ele. E eu só pra ele. Saudades é amor. Não se tem saudades do que não se ama. Ou amou. O amor não acaba, porque tenho saudades, me lembro dele todos os dias, me preocupo com ele, torço por ele, e se sonho com ele, meu dia está feito. O amor não pode acabar, porque sem ele ou sem a esperança de revê-lo, até a chance de tê-lo de volta, minha guerra não tem fim. Ele é uma trégua na minha guerra pessoal contra a minha paixão por ele. Amá-lo me faz bem. Mesmo que ele não me ame. Amo amá-lo. Continuei amando desde o dia em que terminou. Passei meses amando como se não tivesse acabado. Ficaria anos amando mesmo se não tivesse voltado. O amor não acaba, muda. O amor não será, é. O amor está. Foi. Nas tantas músicas que ouvimos juntos, que dançamos colados, trilhas das noites frias abraçados, seus braços imobilizando os meus. O não-amor é o vazio. O antiamor também é amor. Nas minhas mãos frias aquecidas pelas suas. Eu te amava quando você respirava no meu ouvido. Amo-te, amo-te, amo-te. Saudade do instante que você diz, com tanta verdade: Eu te amo! O amor acabou quando você se foi? Fala a verdade... Você sentiu saudades das minhas paredes, das cores das minhas roupas, da umidade da minha boca, do cheirinho do meu travesseiro, da minha torrada com mel, do meu endereço, do lanchinho improvisado, você sentiu falta de atravessar a avenida comigo de mãos dadas, de correr da chuva, de eu te indicar aquele livro, do cinema gelado em que vimos aquele filme sem fim, torcendo para acabar logo e ficarmos a sós, você sentiu falta da minha risada, da minha inconveniência, de eu ser sua amante, sua noiva, sua amiga e esposa, dos meus olhos te espiando, dos meus dentes te mordendo, ficou tanto tempo longe de mim e pensou em nós todas as madrugadas, especialmente bêbado ou louco, queria me ligar, me escrever, meu cheiro aparecia de repente, meu vulto estava sempre ali presente, acaba? Diz que acaba. Como acaba? Não acaba. Diz, não acaba. Repete. Falei. Não acaba. Pode virar amor não correspondido. Pode ser amor com ódio, paixão com amor. Pode vir em muitas embalagens e tamanhos. Só tenho uma certeza. Tem amor e o nada. Ah, mais uma coisa. Antes que eu me esqueça. O amor não acaba. Vira. Sorry. Se acabar não é amor.
Inspirado em Paulo Mendes Campos
enviada por Mana de Fé
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